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Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
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Revista Será?, abr 23, 2026

China
Revisão das tendências observadas nas duas últimas décadas do século XX, no cenário global internacional, oferecendo uma análise sintética sobre os novos fatores em jogo nos primeiros 25 anos do século XXI.
No final dos anos 1990, recebi convite do professor Flávio Saraiva, dileto amigo do Departamento de História da UnB, para participar, com outros colegas acadêmicos, de um livro didático sobre as relações internacionais na era contemporânea, ou seja, os dois séculos desde a revolução francesa, passando pela Grande Guerra, pela segunda, 20 anos depois, e chegando ao final do século XX. A encomenda a mim feita era praticamente a de uma “história imediata”: as duas décadas finais do século, o que me levou a rever estatísticas econômicas e anuários geopolíticos e diplomáticos de uma fase que ainda estava se desdobrando aos nossos olhos. Minha colaboração foi publicada nesta obra: José Flávio Sombra (org.): Relações internacionais: dois séculos de história, v. II: Entre a ordem bipolar e o policentrismo, de 1947 a nossos dias (Brasília: IBRI-Funag, 2001).
Em meu ensaio, escrito ainda no ano divisor entre dois séculos e dois milênios – sem a “novidade”, portanto, dos ataques terroristas de setembro de 2001 contra as duas torres gêmeas de Nova York e o Pentágono, em Washington –, tentei resumir o sentido dos “dez anos que abalaram o mundo”, na década de 1980, para evocar o título do livro de John Reed, sobre os “dez dias” que, a partir da fundação do primeiro “Estado socialista”, haviam abalado a ordem global ainda dominada pelas grandes potências capitalistas; aquela década tinha visto o final do socialismo, seguida de dez anos de construção de um novo equilíbrio de poderes e de uma nova geoeconomia, sob o signo de uma terceira onda de globalização; o longo texto (mais de 80 páginas), “As duas últimas décadas do século XX: fim do socialismo e retomada da globalização”, pode ser lido neste link da plataforma Academia.edu:
Aquelas duas décadas extraordinárias, no plano das transformações estruturais da economia e da política mundiais, foram marcadas pela perspectiva ingenuamente otimista do “fim da História”, ao terem sido, supostamente, portadoras da capacidade de estabelecer os fundamentos econômicos e políticos de uma “nova era mundial”, como anunciado pelos presidentes americano George Bush (pai) e russo, Boris Ieltsin, em 1992. Ela o foi, num certo sentido, a do fim do socialismo, entendido no sentido marxista de modo de produção capaz de superar o modo capitalista de produção; só sobraram dois regimes anacrônicos, Cuba e Coreia do Norte, nas antípodas, sem maior impacto na economia global. Mas no seu sentido essencialmente político, o socialismo era a forma de dominação mais propensa a sustentar autocracias, daí a aspiração de que a sua derrocada correspondesse à ampliação do espaço democrático no mundo e a um reforço de uma ordem global liberal. Não foi o que ocorreu: saímos frustrados daquele avanço, a despeito da adesão da China ao sistema multilateral de comércio. A ameaça atual se dá porque a potência criadora e defensora da ordem liberal passou a se voltar contra ela, estimulando um retorno aos imperialismos brutais do passado, entre estes um neoczarismo agressivo e expansionista em direção de seus espaços contíguos.
No tocante à globalização, a despeito de um neoprotecionismo latente nas principais economias globais, em especial concomitantemente à pandemia, pode-se dizer que, no seu sentido micro, como indutora de inovações e de mudanças contínuas no “modo de produção capitalista”, ela não só se manteve como continuou em sua marcha transformadora do mundo. Em contrapartida, no sentido macro, aquela induzida ou sustentada por Estados e entidades multilaterais, essa passou a enfrentar percalços no seu desenvolvimento e expansão. Não deixa de ser paradoxal que a principal potência “socialista” seja aquela que continua a propor acordos de livre comércio e a sustentar o sistema multilateral administrado pela OMC, ao passo que a grande e tradicional potência “capitalista” não apenas rompeu totalmente com a secular cláusula de nação mais favorecida da Lex Mercatoria, como forçou dezenas de parceiros comerciais a concordar com ajustes tarifários claramente desiguais e prejudiciais.
A principal mudança na economia global se deu justamente no plano comercial, ao ter a China, depois de seu ingresso na OMC – um processo que durou 14 anos, de 1987 a 2001 – substituído rapidamente os EUA como o principal parceiro comercial de quase uma centena e meia de países em 2026 (o Brasil desde 2009). No plano financeiro, as mudanças foram igualmente relevantes: em 1970, os cinco maiores bancos dos Estados Unidos ocupavam as principais colocações (dentre elas as três primeiras) em uma lista de dez grandes casas bancárias, que não comportava, até então, nenhum banco japonês. No decorrer dessa década e na seguinte, com a progressiva valorização do iene e a ascensão financeira do Japão, pari passu à fragilidade relativa do dólar, os conglomerados japoneses passaram a ocupar sete das dez primeiras posições (dentre elas as seis principais) de uma lista que não ostentava mais nenhum banco norte-americano, mas ainda três aglomerados bancários franceses, em 1990.
No ano 2000, a despeito de uma formidável crise financeira no Japão, desde o início da última década do século XX, a situação se apresentava da seguinte maneira, nesta ordem, para os dez primeiros bancos: Fuji-Industrial-Dai Ichi Kangyo Bank (Japão); Deutsche-Dresdner (Alemanha); Asahi-Sanwa-Tokai Bank (Japão); Sumitomo-Sakura Bank (Japão); Bank of Tokyo-Mitsubishi Bank (Japão); Citigroup (EUA); Banque Nationale de Paris-Paribas (França); Bank of America (Estados Unidos); Union de Banques Suisses (Suíça) e Hong-Kong Shangai Bank (Grã-Bretanha), segundo a classificação por ativos, feita pela revista American Banker. Em 2025, finalmente, os dez maiores bancos, por ativos, a China ocupando as quatro primeiras posições, passaram a ser os seguintes: Industrial & Commercial Bank of China (quase 7 trilhões de dólares de ativos); Agricultural Bank of China; China Construction Bank; Bank of China; JPMorgan Chase (“apenas” 4 trilhões); HSBC Holdings (o maior da Europa); Mitsubishi Financial Group (o maior da Ásia Pacífico); Bank of America (o maior dos EUA); Sumitomo Mitsui e Mizuho, do Japão, os dois últimos exibindo a mais alta taxa de lucro desses grandes grupos financeiros (dados da Standard & Poors).
Ainda no plano geoeconômico, a mudança mais significativa na economia mundial foi, nas duas primeiras décadas do século XXI, a irresistível, e aparentemente “incontível”, ascensão econômica da China, cujo PIB ultrapassou todos os membros do G7, à exceção, obviamente, dos EUA, que ainda guardam a supremacia em termos nominais (ainda que cálculos em paridade de poder de compra já apontem para a primazia do gigante asiático). Não se trata apenas da nova “locomotiva” da economia global – e detentora de quase 70% da produção manufatureira mundial –, mas de um verdadeiro “dínamo” da quarta (talvez quinta) revolução tecnológica, dotado de uma infraestrutura futurística e já avançando decisivamente na pesquisa e desenvolvimento, com uma taxa de inovações patenteadas caminhando para galgar os primeiros lugares na história econômica do século XXI. Essa mudança, projetada inclusive para a transferência da economia mundial do Atlântico Norte – onde esteve nos últimos cinco séculos – para o Pacífico Norte (e crescentemente para o Índico também), configura uma dessas “astúcias” da História a que se referia Hegel. Essa mutação não corresponde unicamente a um movimento “ideal”, mas a processos concretos de afirmação de poder econômico bruto, tanto porque a ascensão de Trump na administração americana (de 2017 a 2020, e novamente a partir de 2025) produziu, concretamente, uma aceleração involuntária do declínio da ainda maior potência econômica mundial, mas apresentando sinais reconhecíveis de esgotamento de suas possibilidades de liderar o novo “capitalismo”.
No plano da geopolítica tradicional – de volta às colunas dos analistas conhecidos –, se fala de uma “segunda Guerra Fria”, que seria desta vez entre os EUA e a China, com alguns acadêmicos ensaiando um enfrentamento inevitável, no “modelo” da “armadilha de Tucídides”, que seria uma nova guerra do Peloponeso, entre uma potência ascendente e uma outra declinante. Esse cenário representa mais a paranoia do grande império contestado em suas pretensões hegemônicas do que uma configuração traçada pelos novos mandarins do Império do Meio nouvelle manière, com um “imperador” consciente das aspirações de uma grande potência que não pretende ser um novo Hegemon mundial, mas apenas estabelecer todos os domínios do velho Império do Meio no estreito de Taiwan e, sobretudo, jamais permitir que a China seja novamente humilhada pelas potências ocidentais ou pelo Japão, como ocorreu nos séculos XIX e XX. Não é da China, porém, que provêm novas ameaças à paz e à segurança internacionais, mas dos principais protagonistas da primeira Guerra Fria.
Com efeito, turbulências na ordem política internacional começaram imediatamente após a ascensão ao poder, na Rússia diminuída em 1991, do ex-agente do KGB vocacionado à reconstrução do antigo império soviético, tal como ele declarou em 2005, como tendo sido a “maior catástrofe geopolítica do século XX” (concordo com a magnitude do evento, mas o considero como essencialmente benéfico a toda a humanidade, em primeiro lugar para os europeus). Putin “esquentou os motores” na invasão da Georgia setentrional em 2008, testou a reação dos ocidentais no fortalecimento das populações russas da Transnístria (Moldávia do norte, fronteira com a Ucrânia ocidental) em 2010, avançou desafiadoramente na reconquista da península ucraniana da Crimeia em 2014, junto com a preparação de uma guerra secreta no Donbas (Ucrânia oriental) e, finalmente, lançou-se à conquista de toda a Ucrânia em 2022, esperando submetê-la rapidamente em poucas semanas. Desta vez, o “Ocidente” (ainda com os EUA de Biden) reagiu e impôs sanções à Rússia e apoiou moderadamente a Ucrânia no plano militarmente defensivo. Forças russas avançaram rapidamente em quatro províncias da Ucrânia, mas a guerra de atrito passou de defensiva a ofensiva, com um crescente poderio tecnológico por parte do país invadido, que resiste bravamente no quinto ano do conflito.
O lado mais terrivelmente ameaçador à paz e à segurança internacionais provém, contudo, do império declinante sob a administração agressiva de Trump, que formulou uma “doutrina” compatível com a era das grandes potências coloniais, até o início do século XX. Sua geopolítica da brutalidade se dirige, em primeiro lugar, ao próprio Hemisfério, mas sua pretensão é a de configurar uma espécie de Yalta 2, com zonas de influência igualmente repartidas entre as três grandes potências da atualidade. As ameaças ao Brasil não se colocam diretamente, a menos que sua política externa mantenha qualquer pretensão a adotar uma postura divergente da autonomia tradicional de sua diplomacia vis-à-vis as grandes potências.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5287: 21/04/2026, 4 p.
https://www.citynewsservice.cn/shine/f7cfa54d-3295-4084-ae47-4c9dbf2849b8

Every April 23, the global community observes World Book and Copyright Day, a date anchored by a historical coincidence involving the two pillars of Western letters.
In 1995, UNESCO canonized this day to honor the deaths of Spain's Miguel de Cervantes and England's William Shakespeare in 1616. Yet, beneath the official commemoration lies a chronological curiosity.
While their records bear the same date, they did not die on the same day. Spain had already embraced the Gregorian calendar while England remained tethered to the Julian system. In the eyes of the sun, Shakespeare outlived his Spanish contemporary by 10 days. History, it seems, preferred a poetic alignment over a literal one.
In Cervantes, the world found the architect of the modern novel through the "impractical idealist" Don Quixote. A figure of naive nobility, Quixote spent his life attempting to right incorrigible wrongs, becoming the eternal symbol of the romantic vision.
Across the Channel, Shakespeare was busy drafting the blueprint of the human psyche. His influence on the English language remains unparalleled; the Oxford English Dictionary cites his work over 32,000 times, dwarfing even the King James Bible. As his peer Ben Jonson famously remarked, Shakespeare was "not of an age, but for all time," a sentiment that resonates as deeply today as it did in the 17th century.
If Cervantes and Shakespeare provided the soul of this global celebration, Shanghai provided the bone and sinew for China's modern reading culture. This metropolis is far more than a financial juggernaut; it is the undisputed cradle of Chinese publishing.
The founding of the Commercial Press in 1897 transformed the city into an intellectual forge, translating the wisdom of the West and exporting the philosophy of the East.
By the early 20th century, Shanghai's Fuzhou Road had become a literary thoroughfare rivaling the Left Bank of Paris. During that period of swift modernization, Shanghai's printing houses produced an astounding nine out of every 10 books published in China.
This ink-stained legacy has not merely survived; it has flourished into a contemporary cultural phenomenon. Since its inception in 2004, the Shanghai Book Fair has evolved from a mere marketplace into a civic ritual.
By 2025, the fair drew nearly 400,000 devotees, with readers traveling hundreds of miles by high-speed rail to participate in what has become the city's premier cultural barometer.
This is not just commerce; it is a manifestation of "book fragrance," a term that describes the city's enduring obsession with the written word and its historical mission to enlighten the public.

With the completion of the Shanghai Museum of Literature, the reading gene continues to replicate through the streets. From the avant-garde shadows of the Zikawei Library to the intimate literary salons of Sinan Mansions, Shanghai is constructing a "permanent book society."
This infrastructure ensures that the act of reading is integrated into the very fabric of urban life, moving beyond the traditional library to become a ubiquitous presence in every neighborhood.
To celebrate World Book Day in this city is to do more than nod to the ghosts of Madrid or Stratford-upon-Avon. It is an act of homage to the pioneers who, in the dim light of Zhabei (now Jing'an) factory floors, sought to "enlighten the people."
Reading here remains a bridge across time and geography, linking the banks of the Thames and the Manzanares to the shimmering waters of the Huangpu, ensuring that the flame of human spirit burns bright through every page turned.
Um comentário nesta postagem fez-me reler um texto sobre minhas aventuras com os clássicos revisitados:
ANO XIV Nº707 - A SEMANA NA REVISTA SERÁ? Revista Será? Desde 2012 acompanhando o fluxo da história. ANO XIV Nº707 Recife, 24 de abril de...